- Quinze paramédicos e socorristas palestinianos, que se deslocaram ao sul de Gaza para uma operação de salvamento, foram mortos a tiro
- Corpos foram encontrados em 30 de março numa vala comum, após nove dias de buscas angustiantes
- “O pessoal médico que desempenha as suas funções humanitárias deve ser respeitado e protegido em todas as circunstâncias” — Erika Guevara Rosas
A Amnistia Internacional defende que tem de haver uma investigação independente e imparcial sobre as circunstâncias em que, pelo menos, 15 paramédicos e socorristas palestinianos, que se deslocaram ao sul de Gaza para uma operação de salvamento, foram mortos a tiro, após as forças israelitas terem disparado sobre os seus veículos. A Amnistia Internacional reitera ainda os apelos para que seja concedido acesso imediato, a monitores independentes, à Faixa de Gaza ocupada.
Entre os mortos contam-se oito profissionais de saúde da Sociedade do Crescente Vermelho Palestiniano (SCVP), um membro do pessoal da UNRWA e seis membros da Defesa Civil Palestiniana (DCP). Um outro paramédico da SCVP continua desaparecido.
“Estes homens eram paramédicos e socorristas que se arriscavam dia após dia, enfrentando bombas e balas e trabalhando em condições difíceis para salvar vidas. O facto de terem sido mortos enquanto cumpriam a sua missão, é profundamente angustiante e uma tragédia absoluta. O pessoal médico que desempenha as suas funções humanitárias deve ser respeitado e protegido em todas as circunstâncias. Os ataques deliberados a médicos e trabalhadores humanitários são proibidos pelo direito internacional e constituem crimes de guerra. Quando os médicos e os trabalhadores humanitários são impedidos de efetuar o seu trabalho de salvamento, todas as vítimas do conflito sofrem. Estes assassinatos devem ser investigados de forma independente e imparcial e os seus autores devem ser responsabilizados”, afirmou Erika Guevara Rosas, diretora sénior da Amnistia Internacional para a Investigação, Política, Advocacia e Campanhas.
“Os ataques deliberados a médicos e trabalhadores humanitários são proibidos pelo direito internacional e constituem crimes de guerra”
Erika Guevara Rosas
Segundo um membro da DCP, entrevistado pela Amnistia Internacional, as vítimas tinham-se deslocado à zona de Hashashin, em Rafah, em 21 de março de 2025, numa missão de salvamento conjunta da SCVP e da Defesa Civil Palestiniana, para prestar assistência a feridos, entre eles um médico da SCVP, Mustafa Khafaja, no local em trabalho devido a bombardeamentos israelitas. A comitiva da SCVP esteve desaparecida até 30 de março, dia em que os seus corpos foram encontrados numa vala comum, após nove dias de buscas angustiantes.
Um dos paramédicos foi detido pelas forças israelitas e libertado em 23 de março.
Os militares israelitas afirmaram que um inquérito inicial concluiu que as suas tropas abriram fogo contra veículos considerados “suspeitos”, reconhecendo que tinham disparado contra ambulâncias palestinianas e camiões de bombeiros. Na altura, as forças israelitas tinham o controlo total da zona.
A Amnistia Internacional continuará a investigar os pormenores deste incidente. Os esforços para investigar as violações e os crimes ao abrigo do direito internacional em Gaza continuam a ser gravemente dificultados pelo cerco total imposto por Israel à Faixa de Gaza, incluindo a sua recusa em permitir o acesso de investigadores dos direitos humanos, incluindo peritos forenses.
“A recusa continuada de Israel da entrada, em Gaza, de peritos forenses e investigadores independentes, incluindo do Tribunal Penal Internacional (TPI) e de organizações internacionais de direitos humanos, como a Amnistia Internacional, reforça a impunidade e encorajará os autores de crimes de guerra de todas as partes”, afirmou Erika Guevara Rosas.
“Não se pode permitir que as autoridades israelitas continuem a obstruir as investigações dos crimes de atrocidade, desafiando as ordens juridicamente vinculativas do Tribunal Internacional de Justiça”
Erika Guevara Rosas
“A investigação da Amnistia Internacional indica que Israel é responsável por crimes de guerra e genocídio em Gaza. Não se pode permitir que as autoridades israelitas continuem a obstruir as investigações dos crimes de atrocidade, desafiando as ordens juridicamente vinculativas do Tribunal Internacional de Justiça. Têm de permitir imediatamente a realização de investigações imparciais e independentes e a recolha e armazenamento de provas vitais por investigadores profissionais, incluindo os mandatados pela ONU e pelo TPI, bem como os que trabalham para organizações palestinianas e internacionais de defesa dos direitos humanos. Sem essas investigações, Israel está a negar às vítimas qualquer perspetiva de justiça e reparação”, notou a responsável da Amnistia Internacional.
“À luz do descarado desafio de Israel ao direito internacional, incluindo os princípios fundamentais do direito humanitário internacional, os Estados não podem continuar a permanecer em silêncio e inativos. Têm a obrigação clara de garantir que Israel respeita o direito humanitário internacional e de pôr termo ao genocídio de Israel e a outras violações graves do direito internacional contra os palestinianos. Cada dia de inação está a custar vidas em Gaza e encoraja ainda mais os perpetradores”, concluiu Erika Guevara Rosas.
“Cada dia de inação está a custar vidas em Gaza e encoraja ainda mais os perpetradores”
Erika Guevara Rosas
O genocídio de Israel em Gaza já resultou na morte de um número sem precedentes de trabalhadores humanitários, a grande maioria dos quais são palestinianos. No total, desde 7 de outubro de 2023, pelo menos 408 trabalhadores humanitários foram mortos em Gaza, incluindo pelo menos 280 funcionários da UNRWA e 34 funcionários da SCVP.