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sexta, 16 setembro 2016 12:16

Fugir da Síria é difícil e um autêntico milagre fazê-lo em cadeiras de rodas

 

Alan e Gyan: dois nomes, duas pessoas, tão só, na magnitude de milhões de sírios que se veem forçados a fugir do seu país, sob a ameaça das bombas e dos combates, em busca de um refúgio seguro. Mas mais do que dois nomes, duas pessoas, são os protagonistas de uma perigosa viagem em cadeiras de rodas, em busca da sobrevivência e de se reunirem ao pai, quando tudo está a jogar contra eles. A campaigner da Amnistia Internacional sobre Migrações Monica Costa Riba conta aqui a história extraordinária dos dois irmãos.

“Atados a cada um dos lados de um cavalo, Alan Mohammad, de 30 anos, e a irmã Gyan, de 28, atravessaram as montanhas escarpadas desde o Iraque até à Turquia em fevereiro passado. A irmã mais nova fez o caminho a pé, conduzindo o cavalo pelas rédeas. A mãe, outro irmão e outra irmã seguiam atrás, carregando as duas pesadas cadeiras de rodas pelo íngreme trilho de terra batida.

Alan e Gyan, ambos professores, sofrem de atrofia muscular desde a nascença. A mobilidade foi sempre muito difícil para eles, mas quando as bombas e os morteiros do grupo armado autodesignado Estado Islâmico começaram a cair sobre a casa onde viviam em Al-Hasakah, no Nordeste da Síria, a família percebeu que tinha de sair dali. Mas para onde é que podiam ir?

Contaram-me que por três vezes tentaram atravessar a fronteira para entrar na Turquia, mas a cada uma dessas vezes a polícia turca disparou contra eles. Então decidiram tentar uma rota diferente para se escaparem da Síria: rumo ao Iraque. A família ficou em território iraquiano durante cerca de um ano e meio, até que a aproximação das forças do Estado Islâmico os forçou a fugir de novo. Daí, o pai seguiu com a mais nova de todos os irmãos e acabou por conseguir chegar à Alemanha.

Conheci o Alan em julho passado, no campo de refugiados em Ritsona, a uns 80 quilómetros de Atenas. “Foi uma viagem muito difícil”, descreveu. “Para as ‘pessoas normais’ já é muito difícil. Para pessoas com deficiência é um milagre, porque as fronteiras entre os dois países [Iraque e Turquia] são nas montanhas”.

Alcançada a Turquia, a família conseguiu entrar em contato com um traficante, a quem pagaram 750 dólares (quase 670 euros) por cada um deles para que os levasse até à Grécia. Os traficantes garantiram-lhes que viajariam num barco com nove metros de comprimento, com o total de 30 pessoas a bordo. Mas quando chegaram à praia o que encontraram foi um bote insuflável, com não mais do que seis metros, e pelo menos 60 pessoas a gritarem pelo seu lugar. Os traficantes informaram então Alan e Gyan que não havia espaço no barco para as cadeiras de rodas.

Não tiveram outra escolha se não a de abandonarem as cadeiras na costa. Com a ajuda dos familiares lá se enfiaram no bote, amontoados com as muitas dezenas de outros passageiros.

Pouco após a partida, o motor do barco começou a falhar e acabou por parar, deixando-os à deriva em águas territoriais da Turquia. “Foi aterrador. Estivemos quatro horas perdidos nas águas. Sempre que olhava em volta via os bebés e as crianças a chorar… A minha mãe desmaiou e a certa altura a minha irmã disse-me que já não aguentava mais…”, recordou Alan.

Eventualmente, algumas das pessoas a bordo do bote conseguiram pôr o motor a trabalhar de novo e prosseguiram a viagem. Acabaram por ser resgatados das águas pela guarda-costeira grega e levados para a ilha de Chios, onde foram dadas cadeiras de rodas a Alan e a Gyan.

Chegaram à ilha grega a 12 de março passado, uns dias antes de entrar em vigor o acordo firmado entre a União Europeia e a Turquia. As fronteiras de outros países estavam agora totalmente fechadas para eles.

Quaisquer esperanças de lhes ser permitido reunirem-se ao pai, na Alemanha, ficaram desfeitas e uma reunião no Gabinete Europeu de Apoio ao Asilo não chegou a concretizar-se. Em vez disso, a família foi encaminhada para o ferry que liga Chios à Grécia continental e daí para um autocarro rumo ao campo de refugiados de Ritsona.

Ritsona é um campo aberto e isolado numa base militar abandonada localizada no meio de uma zona florestal. As condições são ali um desafio com temperaturas de um calor sufocante durante o dia. Os alimentos fornecidos são de má qualidade, a maior parte é mesmo deitada fora por não se encontrar em condições, o que atrai javalis para as proximidades do campo. O terreno arenoso e as raízes salientes das árvores por todo o lado tornam especialmente difícil a capacidade de deslocação a Alan e a Gyan e, com o inverno a aproximar-se, tudo irá ficar muito pior.

Mas apesar de todas estas dificuldades Alan permanece positivo. Ensina inglês numa sala de aula improvisada numa tenda que foi fornecida por uma organização não-governamental; o entusiasmo e a alegria das crianças contrasta fortemente com as condições miseráveis do campo.

O fecho da chamada rota dos Balcãs rumo ao Norte da Europa e o fracasso dos líderes europeus em reinstalarem e relocalizarem refugiados deixaram perto de 60 000 refugiados e migrantes encurralados na Grécia, a viverem em constante estado de medo e de incerteza. E resultaram também em Alan e a família continuarem separados do pai e da irmã mais nova por um período de tempo desconhecido.

Mesmo assim, Alan não perdeu a esperança de que a situação irá mudar: “Aqui temos [refugiados que são] médicos e professores. Fugimos do nosso país por causa da guerra. E quero agradecer aos europeus que estão dispostos a acolher refugiados. Aos outros, quero dizer-lhes para não terem medo”.

Este artigo foi originalmente publicado na CNN.

 

A Amnistia Internacional sustenta que parte da solução para a atual crise dos refugiados passa por quatro palavras: eu acolho os refugiados. É esta a declaração de dignidade, de humanidade e de partilha da responsabilidade feita pela organização de direitos humanos. Faça-a também: assine o manifesto!