Home PageMapa do SiteImprimir

Seis anos de crise na Síria: está na altura de fazer justiça

226072 Siria creditadaO sonho de Alan Mohammad torna-se realidade, seis anos após o início da crise na Síria. O refugiado chega à Alemanha com a irmã Gyan depois de uma viagem quase impossível. Uma história emocionante que não faz esquecer os números: 1 em cada 100 civis sírios foram assassinados nos últimos seis anos, 50% da população que está no país precisa de assistência humanitária e 20% tornou-se refugiada.

Todos eles são vítimas de um conflito onde estão a ser cometidos crimes de guerra e crimes contra a humanidade que permanecem impunes. Para marcar o sexto aniversário da crise na Síria, a Amnistia Internacional lança uma campanha que visa exigir aos líderes mundiais ação imediata para garantirem justiça, verdade e reparação.

“Seis angustiantes anos depois, não há desculpas para permitir que os crimes horrendos de acordo com a legislação internacional, que estão a ser cometidos na Síria, continuem impunes”, acusa a diretora de Campanhas do escritório regional em Beirute da Amnistia Internacional, Samah Hadid.

“Os governos já têm as ferramentas legais para acabar com a impunidade que tem permitido que centenas de milhares de sírios tenham sido mortos e milhões deslocados”. Por isso, continua: “chegou a altura de porem essas ferramentas em ação”.

A exceção que confirma a regra

As boas notícias chegaram poucos dias antes deste 15 de março, dia que assinala seis anos sobre a crise que começou em março de 2011 com protestos antigovernamentais. Alan Mohammad, de 31 anos, e a irmã Gyan, de 28, chegaram finalmente à Alemanha, onde já estavam o pai e uma irmã. A viagem foi longa, feita com a mãe e mais dois irmãos, e tinha tudo para não dar certo.

“Para pessoas normais esta viagem é muito difícil, mas para pessoas portadoras de deficiência é um milagre cruzar as fronteiras”, conta Alan em entrevista à Amnistia Internacional. Os dois irmãos, curdos, sofrem de distrofia muscular desde a nascença e foi em cadeiras de rodas que deixaram a casa, no nordeste da Síria, quando se deu o avanço do Estado Islâmico.

A viagem em busca de segurança levou os irmãos e a família a atravessarem quatro fronteiras. Primeiro tentaram chegar à Turquia, mas nas três tentativas a polícia turca disparou sobre eles. Fugiram para o Iraque, onde estiveram um ano e meio até o Estado Islâmico os forçar a nova fuga. Para passar a fronteira montanhosa do Iraque os dois irmãos foram colocados num cavalo, enquanto a mãe, Amsha, o irmão Ivan e a irmã mais nova, Shilan, levaram as cadeiras de rodas.

Na Turquia, a família pagou por um viagem perigosa num barco sobrelotado até à ilha grega de Chios. Chegaram em março do ano passado e ficaram num campo para refugiados a 60 quilómetros de Atenas. O campo ergueu-se de uma base militar abandonada e na altura da visita da Amnistia Internacional estava coberto de tendas, sendo completamente inadequado para as suas necessidades.

Finalmente, após anos de medo e incerteza, Alan e a família estão todos reunidos. Porém sabem que são a exceção. Vinte por cento da população síria conseguiu fugir do país e encontra-se refugiada, mas milhares estão encurralados nas ilhas gregas, faça chuva ou faça sol, sem solução à vista. A sua saúde, física e mental, deteriora-se a cada dia. É urgente salvá-los! Assine a petição.

Botao Peticao Grecia

Os governos podem ajudar a fazer justiça

Os crimes contra a humanidade e os crimes de guerra cometidos pelas partes em conflito na Síria têm sido amplamente documentados pela Amnistia Internacional e por outras organizações de direitos humanos, bem como por agências das Nações Unidas.

As forças governamentais sírias, com o apoio da Rússia, atacaram e bombardearam civis, matando e ferindo milhares, mantiveram cercos prolongados sobre áreas civis, sujeitaram dezenas de milhares a desaparecimentos forçados e a execuções extrajudiciais, e torturaram e mal trataram sistematicamente detidos, causando milhares de mortos sob custódia. Os grupos armados bombardearam indiscriminadamente e cercaram áreas predominantemente civis, tendo ainda sido responsáveis por raptos, tortura e execuções sumárias.

Todos estes crimes continuam a acontecer na Síria e não podem ficar impunes. Para todas as vítimas que têm direito à verdade, à reparação e justiça, há três caminhos possíveis.

  1. O Tribunal Penal Internacional, que está bloqueado porque a China e a Rússia vetam todas as tentativas de ação desde 2014.

  2. O mecanismo denominado Jurisdição Internacional, que permite a alguns Estados processarem pessoas quando se suspeita que tenham cometido os mais graves crimes previstos na legislação internacional: crimes de guerra, crimes contra a humanidade, tortura, genocídio, atos de terrorismo e desaparecimentos forçados. Alguns países europeus já investigaram crimes de guerra cometidos na Síria, mas é preciso que mais Estados comecem investigações e julgamentos.

  3. Uma nova esperança surgiu em dezembro de 2016, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou um mecanismo internacional independente para investigar se foram cometidos na Síria, desde março de 2011, os mais graves crimes de acordo com a legislação internacional, com intenção de levar os seus perpetradores a julgamento. O mecanismo espera agora os fundos necessários, por parte dos membros das Nações Unidas, para poder começar a funcionar.

Samah Hadid recorda aos líderes mundiais que “ao adotar esta resolução, a comunidade internacional enviou uma mensagem de esperança para as pessoas da Síria: uma promessa de que o mundo não os abandonou e que os responsáveis pelo seu sofrimento não vão ficar impunes”. Agora é preciso passar à ação.